Personagens (e seus equivalentes)
Personagens (e seus equivalentes)
Auxiliar: Anjo
Está sempre ocupada e preocupada. Passa o tempo a atender o telefone e a
varrer a entrada.
Puto Diabólico: Diabo
O Objetivo do P.D. é desencaminhar todos os que conseguir e levá-los a
faltar às aulas. Para ele, a escola é um inferno. É viciado em vídeo-jogos
(está sempre a jogar no telemóvel) e tem um fraquinho pela Tiktoker (a
Larissa). Tem medo dos Rufias (mais fortes do que ele).
Futebolista: Fidalgo
É vaidoso e gosta de se gabar dos seus feitos.
Professora: Onzeneiro
É uma professora dedicada que procura ajudar os alunos.
Palhaço: Parvo
Personagem bipolar. Tão depressa está de bom humor como de mau humor.
Quando bem disposto toma atitudes de palhaço, saltando e rindo
descontroladamente. tem vários tiques nervosos.
MÃE: Sapateiro
Pai dedicado que pensa ter um filho estudioso, aplicado e respeitador.
Nerd: Frade
Personagem inteligente capaz de analisar e aproveitar cada situação em
seu proveito.
Tiktoker: Alcoviteira
(A Larissa) É bissesual. Passa o tempo a fazer vídeos para o TikTok.
É uma personagem sempre irritadiça e que não sabe muito bem o que quer.
Rufia 1
Rufia 2: Corregedor e Procurador
São duas personagens com má índole.
Perante a Auxiliar mostram-se sempre simpáticos e respeitados.
Controlam o P.D. e roubam-lhe dinheiro.
Embora sejam os rufias de serviço, não querem reprovar por faltas.
MIÚDA: Enforcado
É o aluno que participa em atividades da escola (teatro) mas que tem
outros interesses, incluindo uma atração pela Larissa.
Vive um dilema entre a liberdade de fazer o que quer e os compromissos
que estabeleceu com os colegas e professores.
O "Chato": Judeu
Personagem que passa o tempo a entrar e a sair de cena, improvisando e
cumprimentando sistematicamente todos os que encontra.
4 Cavaleiros:
A Professora;
A Psicologa;
O Cozinheiro;
A Auxiliar (outra).
Cena I
ATO I
Cena I
SOM: 0. Ambiente - Abertura de sala - Passar em loop
(Todos os atores em cena.)
SOM: 1.1 Entrada ... Baixar o volume de som
Ora bom dia, boa tarde, boa noite, dependendo da hora.
Vocês estão aqui sentados por uma no razão:
É para verem crianças a passear rua fora,
Que fora da escola estão.
Ninguém quer ir para o inferno, muito menos nós, meros atores!
4Matemática..., ler obras longas... que chato!
Mas a nossa obra é baril, soi scritore nato,
e conhecemos bem a nossa escola e seus terrores.
Então apresentamo-vos um enredo marado
Visão dramática de miúdos,
Escola Básica do Pinhal, mundo malvado!
Para tristeza de professores e até putos mudos
(aqueles mais calados, mas sempre com positiva).
Mas se a escola é o terror, o que é o oposto?
Passar o dia a brincar? Pode ser lindo...
Ou ter boas notas, notas de Muito Bom... Gosto!
O que é mesmo doloroso: estudo ou gozo?
Deixamo-vos esta questão por resolver...
Sugerimos que reparem nas mensagens,
vejam o que temos para oferecer.
SOM: 1.2 Final de Cena - Até que atores saiam. Auxiliar fica sozinha em
palco.
Cena II
Cena II
SOM: 2.1 Campainha
(A campainha toca e a Auxiliar, com um ar aborrecido, está sentada ao lado
do portão.)
Aux:
Ora, comecemos…
Toca a trabalhar!
Bons, maus e outros extremos
Todos devo deixar passar.
Com juízo já são poucos,
os malandros por cá ficaram…
Ai! Tanto tempo os professores gastaram
para os educar. E por poucos trocos! (Suspira)
Alguns já se cansaram e fazem greve,
Uma solução tão simples, tão breve.
Para salvar uns trocos, foram obrigados a protestar!
Mas, pouco importa. Por aqui vou continuar
Ui! Aqui no meu glorioso altar!
SOM: 2.2 Futebolista
(Aparece o Futebolista, com ar tranquilo, do lado de fora da escola, com
uma bola na mão, ténis de futebolista e uma camisola do Benfica. O
Futebolista passa pelo portão silenciosamente.)
Aux: Olá, bom dia!
(Silêncio…)
Aux: Então, não pia?
Fut: O que quer?!
Aux: Não tem a intenção de ser amigável, não?
Passe o cartão e diga bom dia, não sou uma pessoa qualquer.
(O Futebolista volta ao portão, pica o cartão e diz resmungando:)
SOM: 2.3 Cartão
Fut: Bom dia!
(O Puto Diabólico aparece, fora da escola e encosta-se ao portão..)
P.D.: Psst, oh rapaz!
Ché, ui, madje, aqui, ó rapaz!
Vem cá fora dar um passeio e faltar às aulas, se és capaz!
Fut: É pá, não sei… O que queres fazer, afinal?!
Puto D.: Ahhh! Estou aborrecido… Acho que a escola não vale a pena.
Então vou jogar lá p’ro meu quintal.
Assim serei um Ronaldo. Serei especial!
Fut: Uma manhã assim não me faria mal, (indeciso)
mas iria enfurecer os meus pais…
Sou bom no drible e a passar, mas não jogo com fracos como tu, Pff…
pessoas normais…
Jogo na seleção distrital e estou quase na nacional.
Ontem no treino, esteve lá um olheiro do Benfica…
Parece-me que vou ter contrato para a próxima época!
Olha que bem que me fica!!! (aponta para o emblema do clube).
Agora tenho de ir, volto para o espírito escolar.
(O Futebolista volta-se para se ir embora.)
Puto D.: Não, espera!
Achas-te melhor, hã?! Achas-te superior?
Aposto que te vencia no um contra um.
Fut: Por favor, acabarias no chão com dor.
Puto D.: Isso é o que tu achas! Já joguei na televisão.
Fut: Achas que és bom?! Olha que não!
Nunca entrarás em competição!
(O Futebolista começa a ficar irritado, levanta cada vez mais a voz.)
Acho que só queres passar o tempo.
És tão triste que, quando jogas à baliza, foges da bola.
Ser pequeno é o teu único passatempo.
Puto D.: Xiii! Abusas bué! Ganda estiga!
Grita para aí, mesmo à antiga!
Imagina os teus pais. Grande educação!
Tu aqui, aos gritos, ao pé do portão.
Não queres, não venhas, meu grande pavão!
Espera, não será antes parvalhão?!
(O futebolista abre a boca de pasmo)
Olha as horas! Ah-ah-ah. Já tens faaalta!!!!
(O P.D. fica a rir e aos pulos como um maluquinho. O Futebolista olha para
o telemóvel.)
Fut: Ai maldito, por que não te calas! Bolas!
(O futebolista sai para as aulas a correr. O Puto Diabólico acalma-se e a
Auxiliar intervém.)
Aux: Ó rapaz, o que fazes cá, afinal de contas?
Não me dizes? O que aprontas?
(O puto abre a boca… )
SOM: 2.4 Final de Cena
Cena III
Cena III
SOM: 3.1 Professora F
(A Auxiliar está sentada a pensar na sua vida. O Puto Diabólico não está
muito longe, sentado no chão e levanta-se assim que vê a professora.)
Aux: (Repara na DT) Ora bom dia, senhora professora! Pode passar!
Puto D.: Oh-oh-oh, não saia daqui, professora!
Prof.: Desculpe?!
Puto D.: Não precisa de trabalhar. Saia do espírito escolar.
Hoje há greve.
Prof.: Mas a escola está aberta na mesma.
É que não sou parva, vejo crianças logo à frente.
Ahhh. (apercebe-se) Não devias estar em aula?!
Puto D.: Mas que raio está a falar? Acha que faço tais malandrices?!
Prof.: Só agradecia que não mentisses. Sê honesto, o que fazes aqui?
A escola está a acolher-te?
Estás a faltar às aulas porquê, não me dizes?!
Puto D.: Creio que isso não é assunto seu.
Deixe-me da mão. Sempre atrás de mim.
(O puto vira as costas, dá um passo em frente.)
Prof.: O que estás a insinuar? Com a mentira vais continuar?
Essa má educação…
( o Puto volta atrás…)
Puto D.: Estou surpreso consigo!
Se fosse a si, nesta conversa já teria posto um fim.
Prof.: Não admira que estejas fora da escola.
Sabes? É por isso que ainda aqui estou.
Puto D.: Está aqui porque não tem nada que fazer?
Prof.: Sim, posso fazer o que me apetecer.
Se quisesse até só vos mandava TPC’s,
mas não, estou sempre cá para vocês…
Puto D.: Não me venha com a história do seu sacrifício!
Todos conhecem o vosso ofício…
(O Puto imita a voz da professora:)
“Os Professores ganham pouco!”
(Com voz de gozo:)
Coitados!
E nós, putos, devemos estar calados!
(Novamente imita a voz da professora:)
Os alunos deviam parar de se lamentar!
Para aprender é preciso trabalhar.
Os professores devem respeitar…
Vocês são uma cambada de ingratos…
(A DT fica espantada e o Puto fala cada vez mais alto:)
Vá-se mas é embora, mulher, que nem o diabo a quer…
Mostro-lhe a si o meu maior desrespeito.
A si ou a outra professora qualquer.
Humilhou-me centenas de vezes,
chateou-me e isso eu levei a peito.
Está-me a cansar!
A mim já tem pouco para me ensinar!
Prof.: Miúdo Insolente e ingrato.
Deixa! À escola terás que voltar!
E depois, da tua nota eu trato…
Puto D.: Saia lá daqui, conversa de professor é assunto chato.
(A DT entra na escola – sai de cena - e a Auxiliar olha para o Puto:)
Aux: Ouve lá, no meu tempo não era assim,
Ou ias à escola, ou a polícia ia a casa.
Estudavas, depois trabalhavas sem fim…
Eram outros tempos, professores não eram tratados assim.
Os miúdos da tua idade eram mais calados,
agora são todos mimados…
Tudo vos dão, nem um obrigado vem,
Agradecer-nos a nós e aos pais não vos convém.
SOM: 3.2 Final de Cena
Cena IV
Cena IV
SOM: 4.1 Palhaço
SOM: 4.2 Cartão
(O Puto está deitado a jogar no telemóvel, fora da escola. Aparece o
Palhaço e dois amigos que querem sair da escola. Os dois amigos saem e o
Palhaço não tem autorização…)
Aux.: Alto lá! Onde é que você pensa que vai?
Não tem autorização, não sai!
Palhaço: (Passa de alegre a aborrecido, bipolarmente.)
Ahhhh… Ao aborrecimento regresso…
Aqui nesta prisão sofro mais uma hora.
Tudo por causa dos meus pais… quero sair, só isso peço!
Sozinho, no verdadeiro inferno, sei que demora…
Puto D.: É do Purgatório que falais?
Vem cá fora, para falarmos mais.
Palhaço: Até dizia que sim, mas fui proibido…
Puto D.: Sabes que na época do Renascimento,
o Papa para ganhar uns trocos,
cobrava uma taxa aos pecadores
que assim passavam menos tempo no Purgatório.
Pagavam para se portarem mal!
Não terás crédito que baste?
Queres que eu distraia a Auxiliar ou vais ficar a olhar pro ar?
Palhaço: Calma! Já disse, Puto, não posso passar.
Aux: É verdade, os parentes deixam-no aqui
e sem autorização não pode sair.
Pelo menos foi o que aqui li…
(A Auxiliar aponta para o portátil.)
Puto D.: Vem daí já, ninguém está a olhar.
Os teus pais devem estar em casa a trabalhar.
Palhaço: Bom motivo para aqui estar!
Puto D.: Cala-te, sai daí! Salta dessa pasmaceira…
Palhaço: Assim não me motivas, a falar dessa maneira…
Puto D.: Ninguém vê…
SOM: 4.3 Cartão
(O Palhaço fica desconcertado, pensativo, dás uns saltos para o lado.
Aproveita a distração da Auxiliar e passa o portão. A Auxiliar volta-se para
o Palhaço...)
Aux: Oh, rapaz!
Quem passa o portão fica registado.
Os teus pais vão saber desse pecado…
Palhaço: Bom, pouco importa, afinal… não tenho que temer
Tenho boas notas, quatros e três,
Se aventura quero viver,
sairei desta prisão segura.
Só desta vez!
Aux: Olha, olha, não recomendo.
Telemóvel e PC acabarás perdendo.
Palhaço: (corre para o Puto D)
És tu!
Puto D.: Sou eu! És tu?
Palhaço: Sou eu! És tu mais eu!
(Saem os dois aos saltinhos para fora do palco.)
SOM: 4.4 Final de Cena
Cena V
Cena V
SOM: 5.1 Som Jogo
(A Auxiliar está sentada à secretária. O Puto Diabólico entra em palco com
um sorriso na cara. Deita-se no chão, fora da escola e joga no telemóvel.)
Aux: Então?! Já chegaste, rapaz…se
Pára lá com esses apitos!
Quero silêncio e paz.
Já agora, não te quero ver aflito…
(O Puto, deitado no chão, levanta a cabeça intrigado.)
Puto D.: Aflito? Por que razão?!
Aux: Bem, a tua mãe não vem à reunião?!
Puto D.: Oh, não! O que faço?
Ela vai-me ver aqui, a não ser que me esconda…
Vou-me esconder, o tempo é escasso.
SOM: 5.2 Campainha (Ouve-se a campainha a tocar.)
(O Puto Diabólico entra na escola e a Mãe entra em cena mesmo a tempo de
ver o filho a entrar.)
Mãe: Filho! ‘Tás bem, miúdo?
Que fazes ao portão? Não é intervalo.
Ou se calhar não tiveram aulas… não foi?
Puto D.: (Riso nervoso) Ah… olá mãe, não me dês um estalo
não… não… não é intervalo, mas…
sim, como disseste, não há aulas.
Hoje o professor não apareceu, não deu visita.
Ele disse a todos que tem uma doença esquisita.
O que fazes cá agora?
Ainda não é hora de me ir embora.
Conta-me a razão da tua visita.
Mãe: Hoje há reunião de pais.
Querem falar de ti, sinto-me lisonjeada.
Puto D.: Não é um pouco suspeito?
Mãe: És demasiado bom, filho, pra fazer algo mal feito!
Aux.: Ah, ah, ah! Desculpe lá, não me consigo conter.
Este miúdo tem jeito.
Puto D.: Olha, esta deve estar mamada!
Mãe: (Olha constrangedoramente para a Auxiliar)
Como eu dizia… Eu e o teu pai bem te educámos, muito cuidámos.
És muito amado.
Aux.: E um bocado mimado…
Preste atenção, não vê que tem aí um valente aldrabão?!
Puto D.: Shuush! Cala-te mu… (hesitante) silêncio senhora!
(Entredentes…)
Não me meta em sarilhos, em caga merdeira!
Cala-te, velha, senão…!
(A Mãe fica indignada.)
Mãe: Oh filho! O que te ensinei?!
(Vira-se para a Auxiliar.)
Desculpe senhora, parece que afinal na educação dele falhei.
Puto D.: Desculpa mãe, desesperei…
Mãe: Mas qual é a razão para estares tão nervoso?
Estás bem? Tens algo a esconder?
Pouco importa, à reunião irei
e filho, respeita a senhora!
Parece-me que vão ser duas horas de nada.
Enquanto isso, porta-te bem,
Espero que, no fim do semestre, tenhas nota cem.
(Assim que a mãe vira costas o puto “manda um dedo do meio” e de
seguida ajoelha-se no chão…).
SOM: 5.3 Não do __*
* - Nome do escritor, por alguma razão. Censurado, é privado.
Puto D.: Nãaaaao!! (grita.)
Aux.: Ei! Ei! Ei! Rapaz acalma-te, não te sujes no chão!
P.D.: (O puto sai o portão da escola a lamuriar-se)
Mas xê, wii, madjê, estou lixado!
(fazendo chutos no ar de raiva)
A minha mãe vai saber de tudo, tudo! Tudo vai descobrir!
(Olhando para os lados)
O que faço, devo fugir?
Aux.: Com essas rimas pobres fico-me a rir.
Puto D.: (Confuso) O quê?
Aux.: Nada, nada, nada errado, nenhuma maluquice
Puto D.: Ah bom, como disse…
E agora, o que faço? ‘tou ma vacilar!
Ajude-me!
Aux.: Mas agora sou psicóloga para te ajudar?
Ora a minha vida. Sai daqui!
Se te preocupasses com o teu futuro, não estarias aí.
(O Puto D. salta e chora dramaticamente.)
Puto D.: Uhhh!
Ai, Pedro tenha misericórdia!
Aux.: Pedro?
Puto D.: Ai, Virgem Santa!
E agora aqui rezo por mim!
Estou cheio de medo!
Aux.: (Suspira, virada para o público)
De quem é a culpa desta educação que não levou a nada?
Foi a mãe, a escola ou a criançada?!
(O rapaz fica a chorar dramaticamente.)
SOM: 5.4 Final de Cena
Cena VI
Cena VI
SOM: 6.1 Nerd
(O puto, chateado consigo mesmo, a olhar para o vazio. O Nerd aparece a
tentar entrar na escola. O Puto Diabólico levanta-se, grita ao Nerd e põe-se
à frente dele.)
Puto D.: Ei, oh rapaz, que fazes cá a esta hora?
Nerd: Nada de mais, e que fazes cá tu, rapagão?
Não devias estar nas aulas, não?!
Puto D.: (Rindo) Oh! oh! digo-te o mesmo, ora!
Não me digas que alguém tão inteligente como tu anda na farra?
Nerd: Eh… se calhar… não é do teu interesse,
Só tenho aulas agora!
Não esperava que entendesses.
Puto D.: (Rindo) Uh! uh! Até que tens garra!
Um extrovertido como tu é coisa rara.
Então, ficas com os teus stores ou connosco, malfeitores?
Nerd: Não, não, tenho mas é que estudar.
Puto D.: Tá, tá, sim, sim, pois, pois…
Isso é o que vamos ver.
Nerd: Deixa-me lá em paz, deixa-me ir.
Vou para a escola, estudarei
e professor um dia serei.
Serei reconhecido, pois duro trabalharei.
Ser um bom exemplo para o futuro
sempre em mudança,
pois no futuro não vai haver bonança.
Puto D.: Mas que raio, alguma velha te pôs palavras na boca?
Ou ficaste a jogar jogos de boomers por muito tempo?
Contas isso a uma miúda, ficará toda louca.
Não queres discutir isso comigo?
É um belo passatempo!
Nerd: Já te disse que tenho mais que fazer. Devo estar atrasado…
(A Auxiliar começa a prestar atenção à conversa.)
Puto D.: Uhm… agora que penso melhor, entreter-me contigo é
impossível.
Andar com um rapaz como tu é razão para estar envergonhado.
Devo deixar-te passar?
Estou indeciso…
Aux.: Oh rapaz, quem deixa entrar sou eu.
Puto D.: (Interrompe) Chiu! A conversa não chegou aí!
Aux.: Mas o que é isso?
Aqui queres mandar?
Estás com sorte! Hoje o diretor foi passear!
Nerd: (Olha para o seu telemóvel)
Espera, recebi uma mensagem.
O professor está a faltar?
O que lhe deu?!
Pobre professor, isto dá-lhe uma má imagem.
(Guarda o telemóvel e vira-se ao P.D.)
Bem, afinal de contas, posso ir contigo.
Puto D.: (Exclama indignado)
Oh! oh! oh! Então só sais quando te convém.
Quando não tens nada para fazer é que vais à rua?!
Sou o teu último recurso, não?
Agora não quero! (ameaçador…)
Primeiro disseste que não, agora tens a lata de mudar de ideias…
só porque o professor não veio.
Assim não te quero por companhia.
Nerd: Ah… vá lá! A minha mãe não me vem resgatar, fico cá até à noite.
Vamos ali ao café ao lado. Pago-te o almoço. Não porque te respeite…
Dinheiro para mim não é um problema.
Estás com ar de esfomeado!
(Entredentes, virando-se para o público:)
De burro desorientado…
Sei que adoras bom humor e entretenimento.
Essa fome acabará, com a minha presença te alimento.
Puto D.: Humpf! Está bem, já que pagas…
Já não suporto tanto lamento.
(Os dois vão-se embora)
Aux.: Foi buscar lã e saiu tosquiado.
Veremos quem engana quem.
SOM: 6.2 Final de Cena
Cena VII
Cena VII
SOM: 7.1 Tiktoker 2
(A auxiliar está descansada no seu lugar. Um grupo de três meninas
lideradas por uma “Tiktoker” saem e ficam junto ao portão. Elas ficam a
dançar com um telemóvel à sua frente. O puto diabólico entra em cena todo
gingão.)
SOM: 7.2 Tiktoker Dança
Puto D.: Ahh! (esfregando a barriga)
Oh, Auxiliar, nem imagina o belo almoço que tive!
Ui! Umas batatas com um hambúrguer acompanhado por molho de
tomate… , que requinte.
(Repara nas raparigas perplexo)
Ahhhh…
(dá uns passos atrás para não ser filmado)
Ai, alguém me mate…
Tiktoker: Olha o que fizeste, oh mano.
Tu entras-te no clipe. Agora tenho que repetir.
Sabes que mais?...
Não vale a pena.
(Afasta as raparigas)
Chô! Chô raparigas!
(As raparigas desaparecem)
O que é que queres?
Puto D.: Gostava de estar aqui descansado!
Tiktoker: Sai mas é daqui, puto parvo, chato, deficiente mental!
Puto D.: Eh lá! Tens cá uma raiva…
Diabo de mulher…
Deficiente mental? Num hospital estou internado?
Eu não sou doido, afinal.
(O P.D. coloca-se frente a frente com a Tiktoker)
Chamam-me arrogante, mas olho aqui adiante
e vejo-me no espelho. Tal e qual!
Tiktoker: Ouve lá, sabes o que é respeito?
Puto D.: Ouve lá, sabes o que é estar calada?
Aux.: Ei, ei, ei! Não querem berrar mais alto?
Tirem lá isso do peito ou vamos direitinhos à direção!
Puto D.: Desculpe, blá, blá, blá, não ouviu nada.
Não falo mais com… esta… estupor.
Tiktoker: (Espantada) Ah! Sinto-me ofendida!
Puto D.: Senta-te aqui. Eu não estou de saída!
Vocês, garotas, acham-se tão superiores.
Um rapaz diz olá e dão um chuto nos genitais.
(diz para o público com ar sofrido)
O que já aconteceu…
(volta-se para a Tiktoker.)
Achas que somos inferiores?
Pensa lá! Somos os tais, necessários para um par…
Como Julieta e Romeu!
Ah, desculpa, já sei o que vais dizer:
Dispenso o Romeu. Hoje apetece-me uma Julieta!
Tiktoker: Cala-te, cretino!
Não percebes nada de nada!
Puto D.: Raios. Oh Larissa. Até que… se não fosses assim…
As mulheres, estão sempre em vantagem…
Essas alterações físicas que nos põem a cabeça à roda!
E esse jeitinho malandro!
Tiktoker: Ó gajo, nós é que estamos em desvantagem.
E a menstruação? Dah-a! Isso é assunto sério.
Puto D.: Ah! Mero problema de canalização.
Põe-se fita no buraco e… Bum!
Feito! Boa viagem!
Tiktoker: Tu é que não sabes o que dizes. És burro à fartura!
Vocês rapazes são tal e qual como urtigas.
Espalham-se pelo quintal. São uma praga!
Puto D.: Que raio de metáfora é essa?
Vocês são mesmo burras!
Tik, Tok, Tik, Tok. Está aí alguém?
Tanto tempo que passas na net e não aprendes nada!
Ai, raparigas! Tiktokers!!!
Tiktoker: Se estivesses calado, menos machista serias.
Puto D.: Machista o quê, nem falei mal de vocês!
Tiktoker: Falaste sim, insultas tudo e todos.
Puto D.: (ironia) Pois, sou homem e estúpido.
O que é que querias?
(aproxima-se da Tiktoker e grita-lhe).
Poder ao homem!
Somos os melhores!
Tiktoker: Acho que já sei o que tramas, por ser bi insultas-me até às
entranhas.
Puto D.: Quanto mais me bates, mais eu gosto de ti.
Tiktoker: É impossível, és completamente diferente da nossa geração
inteira!
Seu… seu nazista, facista, terrorista!
Puto D.: (Suspira) Mulheres influenciadas pelo Insta.
Tiktoker: Seu… seu radical, seu, seu… machista. E ignorante.
Puto D.: Ai! Calo-me neste instante.
Gaguejas nas tuas ideias, mulher.
Bem aviados estamos se é isso que o mundo quer.
Tiktoker: Quer o quê?
Puto D.: O quê é uma letra que se lê!
Grande influencer que me saíste!
Faz aí um clip nosso
(com ar de gozo).
Nós os dois muito amorosos!
Mais um TikToc pr’ó planeta cor-de-rosa.
Beijinho, beijinho! É só miminho.
Tiktoker: Cala-te, que não sabes do que falas.
Puto D.: Nem tu, somos ambos crianças! Chapadão no focinho…
Tiktoker: Achas que não me sei defender?
Puto D.: (Ironia) Ai que medo! Uma mulher a fazer-se de forte e
imponente.
Arrogante e ignorante, a tentar mexer na minha mente.
Tiktoker: Vocês, palermas… tão inteligentes.
Achas-me burra?
Aí está! O problema do estereótipo da mulher!
(Suspira e virando-se para o público, diz:)
E depois, esperam que no fim do dia não estejamos impacientes!
Puto D.: O estereótipo da mulher o tanas!
A maioria abraça as ideias que defendes,
poucas são cultas e inteligentes.
Não quero ofender minhas gentes,
mas trans, liberais e fazedores de panelas estão na moda.
E é politicamente correto, mostrarem-se condescendentes.
Tiktoker: Mas o povo é conservador, pouco inovador.
Pensas que é fácil viver assim?! Todos estão contra mim.
Aliás, no início, só estava a dançar e a divertir-me no tiktok…
E tu tinhas que aparecer.
Não quero saber,
(Olha para o telemóvel)
estou atrasada para matemática.
Puto D.: Vai, vai. Vai lá estudar expoentes…
Ai, Larissa, Larissa!
(continua a olhar, com ar malandro, para a Tiktoker enquanto esta se
afasta.)
SOM: 7.3 Final de Cena
(Nota do escritor: Está cena é insana 😅)
Cena VIII
Cena VIII
(A auxiliar está a conversar com o P.D..)
Aux.: Vá lá rapaz, já decidiste?
Puto D.: Não sei… (pensativo)
Verdade que já faltei tanto…
Aux.: Pois. Mais uma falta e chumbas,não?
Puto D.: (P.D. fica pensativo)
Talvez… só um passo escola adentro…
E se calhar ir à aula de francês, ver se entendo.
Não, não devo ir, espera, talvez…
Sim, sim, na escola eu entro…
Aux.: Disso depende o teu futuro, mas não me espanto
que estejas a desperdiçar um ano aqui fora, entretanto.
Puto D.: Poderei ser um prodígio e aos meus pais dar orgulho.
Se me esforçar o suficiente poderei realmente ter um futuro!
Aqui vai, no tédio infernal mergulho!
SOM: 8.1 Campainha
(Puto Diabólico dá um passo para entrar e a campainha da escola toca.)
Puto D.: (Dá meia volta e diz:)
Nah!
Preguiça!
Não vale a pena. Vou-me embora!
Chumbo! Pouco importa agora…
No próximo ano, a paródia, atirarei fora.
Por agora, deste aborrecimento me vou salvar.
Aux.: A escola não é esse lugar de aborrecimento, oh rapaz sem fé.
SOM: 8.2 Telefone Fixo
(o telefone toca e a auxiliar volta para as suas tarefas. PD encolhe os
ombros, agarra no telemóvel e começa a jogar sem se aperceber dos Rufia
1 e 2 que se aproximam a rir-se e aos empurrões. Atiram o P.D. ao chão).
SOM: 8.3 Rufias Entrada
Rufia 1: Olha quem é o maluco… Zé!
Passa o dia todo a jogar, o viciado.
Vá, levanta-te, põe-te de pé.
Puto D.: Céus, dou-te tudo o que tenho!
Dou-te as cábulas que encontrei. Fico sempre do teu lado!
Até dinheiro te dou, pelo qual tenho trabalhado.
Rufia 2: (agarra a gola do PD e pergunta ao Rufia 1)
O que é que ele disse?
Puto D.: (gago) N… n…n… não fiques z… zangado…
Rufia 2: Ai coitadinho, está gago!
Medroso bastardo, achas que posso ser comprado?
Puto D.: P… p… posso ajudar no que quiserem.
Posso, posso… Posso ir embora! O qu… querem?
Rufia 2: (vira-se para o líder, o rufia 1)
Fica onde está?
Rufia 1: Correto.
Rufia 2: (vira-se para o PD.)
Ouviste?
Ficas onde estás, pá!
Sofres mais assim. Ficas cá, senão o “estôgamo” te espeto!
Puto D.: (para si mesmo, olhando para o público:)
Meu Deus! Como fugir destes putos que estão cá…
Rufia 1: (levanta o P.D.) O que disseste, paspalho?
Palhaço do caraças! Se me chibo… rumores de ti espalho
e depois a tua honra desaparecerá!
Rufia 2: Será? Que honra? Este monga é um fracasso!
Oh baixinho, vamos lá ver o que tens…
(abre-lhe a carteira, abana e caem 50 cêntimos)
E em dinheiro é escasso.
Rufia 1: Eia! É pouco mas dá-me jeito!
Puto D.: Pois, fica com eles…
(entredentes, diz:)
Mas, a auxiliar não vem?
(A Auxiliar apercebe-se da cena)
Aux.: O que é que se passa aqui?
Ai, são vocês? Larguem lá o miúdo.
Rufia 1: Nada, nada! Estamos só a brincar!
(passa o braço por cima dos ombros do P.D.)
SOM: 8.4 Telefone Fixo
(O telefone da portaria toca novamente… e Auxiliar atende.)
Puto D.: Ai, estou bem lixado!
Rufia 2: Pois estás, ganda chibo! Bico calado!
(A Auxiliar desliga o telefone e volta a dar atenção à cena.)
Aux.: Ainda aí estão?
Não me digam que tenho que chamar a Escola Segura!
Toca a andar!
Mas, tu não tens aulas? O que fazes aí fora?
Rufia 1: ya. Estamos a ir!
Vamos só acabar aqui a nossa conversa!
(Abraçando o P.D. e voltando costas à Auxiliar).
Puto D.: (ganha coragem)
M… mete-te com alguém das tuas alturas.
Tu, traidor, até chumbado, agora a escola aturas.
Estás agarrado?! Um valente covarde que só putos caça.
Rufia 1: (Ligeiramente ofendido)
Eia, seu ganda filho da Petapitapotaprostipetaput…
(Olha para a auxiliar por cima do ombro e hesitante diz)
Pota…
(Vira-se de volta ao P.D.)
Fica caladinho!
Rufia 2: Olha este malandro, quer levar uma voadora no focinho.
Rufia 1: Oh lixo reciclável. Vais direitinho pr’ó ecoponto!
Não te metas connosco! Com experiência conto.
Rufia 1 e 2: Ecoponto! Ecoponto!
Puto D.: Calem-se, oh parodiantes!
Rufia 1 e 2: Ecoponto! Ecoponto! É um ganda tonto!
Puto D.: Olha que levam uma daquelas que falaram antes!
Rufia 1 e 2: Ecoponto! Ecoponto! Medo de confronto!
Puto D.: (Prestes a explodir de raiva)
Levas uma que vais a… Faro!
Rufia 1: Este puto até tem graça!
Acalma-te ecoponto. Vai um cigarro!
Rufia 2: (Rufia 2 fica de costas para o rufia 1 e para o P.D., virado para o
público e diz:)
Parvo do ecoponto, acha-se…
(O Rufia 2 é interrompido. P.D. bate-lhe nas costas. Rufia 2 risse e nem se
mexe. Depois vira-se e dá um leve empurrão ao PD que cai ao chão.)
Rufia 1: (A rir-se) Ha-ha-ha! Parvo do ecoponto. Acha-se forte!
Puto D.: Seu valente bastardo! (ainda no chão).
Rufia 2: Oh inteligente,
(apontando a si próprio)
‘Tás a enfrentar aqui a morte!
Puto D.: Parvalhão!
Espero não vir a ser como você, seu… mamado!
Rufia 2: Queres perder esses intestinos? Não te voltes a meter comigo!
Rufia 1: Calma, meu! (dirigindo-se ao Rufia 2).
Não vez que é só caga lérias?
Deixa-o pois sempre nos vai rendendo umas moedas!
Anda! Vamos para este inferno disfarçado: uma aula de francês.
(A Auxiliar torna a prestar atenção ao que se está a passar.)
Rufia 1: Bem, adeus oh Ecopon…
(hesitante)
Adeus puto. Vemo-nos no outro lado!
(Os rufias finalmente entram na escola.)
Rufia 1 e 2: Boa tarde D. Gersinda!
Auxiliar: Andem lá!
Passem o cartão!
SOM: 8.5 Cartão
Puto D.: (vira-se constrangedoramente e lentamente para a auxiliar)
Que raio foi aquilo?!
Poderia ter-me protegido!
Aux.: Mais? Nada do meu assunto.
Bastava não te meteres com eles.
Puto D.: Mas estava na minha vida, inocente ao meu estilo.
Aux.: Então ficava longe. Afasta-te, não vez que são reles.
Puto D.: Mas eu estava… até ter sido agredido!
Aux.: Se entraste em conflito é porque estavas perto.
Puto D.: Possas, parece a minha mãe: Não fiz nada e sou culpado.
SOM: 8.6 Final de Cena
Cena IX
Cena IX
(P.D. está fora do portão a jogar. Perde, lamuria-se e mete conversa com a
Auxiliar.)
Puto D.: Raio de jogo! Não consigo passar este nível!
(Ameaça atirar o telemóvel mas espreguiça-se para o evitar)
Eia, que sono!
(levanta-se e dirige-se à Auxiliar)
Sabe que mais, Auxiliar?
O que estava a dar era chatear a parva duma gaja,
agora que os rufias me deram um descanso.
Parvalhões… estou determinado a salvar.
Talvez os irresponsáveis veteranos do 9º ano.
Ou os do teatro!
Estou aqui, para salvar pelo menos um tanso!
Minha bravura salvará pelo menos mais um daquele terrível átrio
.
SOM: 9.1 Miúda
(A miúda aproxima-se do portão e o P.D. vai ao seu encontro.)
A esta hora, o que fazes aqui?!
Não queres dar uma volta e ires no bus comigo?
É que não tenho “guita”.
Aliás, também posso ficar contigo. Ver o que se explora…
Miúda: Ok! Porque não?
Só 12 pessoas por mim esperam, e mais dois encenadores…
(emenda:)
Três!
Puto D.: (Surpreso) Uau, tantos assim, para que precisam de ti?!
Se não fores nem dão pela tua falta!
Miúda: Iá, ‘táma’petecer faltar!
Um chato dos meus colegas não me deixa da mão.
(imitando a voz do colega:)
“Não sabes as falas!”
“Voltas-te a não estudar!”
Parvalhão!
Assim, me safo do sermão!
Aux.: Ah! A menina é do teatro! Entre, entre!
Puto D.: (P.D. põe-se à frente da Miúda e diz para a Auxiliar:)
Oh Dona Auxiliar, não vê que vamos lá pra frente?
Deixe lá a miúda, tem mais que fazer!
(P.D. vira-se de costas e põe a mão por cima do ombro da Miúda.)
Gastamos tudo o que tens, até ao último tostão!
(P.D. olha para o público e pisca o olho.)
Ganda pacto!
(Volta-se para a Miúda)
Vamos lá que temos pouco tempo, senão…
Miúda: Calma lá. Estou aqui porque sim. Só vou se quiser!
Puto D.: Então… mas não me acompanhas a casa?
Miúda: Ná! Acho que vou ficar aqui na paródia a gastar o meu tempo.
Se quiser, vou a casa ver a novela.
Também não fazem progressos no teatro! Não dá pica, assim!
Entretanto, não viste a Larissa?
Puto D.: Larissa? Pois,... é da minha turma. O que queres?
Miúda: Nada. É só para saber!
Puto D.: (Falando para o público)
Olha-me esta! Parece que tenho concorrência!
Eu já lhe dou a volta!
(vira-se para a Miúda e diz:)
Mas se tu queres faltar…
Dessa forma pareces uma criança…
uma criança, irresponsável.
Se calhar devias ir estudar para a peça.
Não é que me preocupe contigo,
mas, não te estiques!
Miúda: Não, não vou ao teatro hoje.
Hoje não vou fazer nada.
Epá, a Larissa não sai agora?
Puto D.: Esquece lá a miúda!
Vou-te contar um segredo:
(aproxima-se da Miúda)
Ela não gosta de gajas!
Miúda: (Espantada)
A sério? Acho que não percebes mas é nada!
Puto D.: Yha. Agora esquece lá isso.
Estavas a dizer?
Miúda: Pois…, (com ar chateado) o teatro…
Vai ser um desastre, pois as falas ninguém decora!
Olha, há uma que não trabalha patavina e depois faz-se de fada!
O Luminotécnico e o sonoplasta sabem mais falas do que ela.
E depois os encenadores têm de controlar mais que uma dúzia de
putos, e quando se acalmam, já é de noite.
Puto D.: Eia pá! ‘Tás tipo hipócrita, não?
É assim mesmo! ‘Que curte!
(vira-se para o público e diz:)
Agora não sei se quero que vás ou que fiques!
Se deixasse pendurado, levavas uns açoites!
Bolas, agora até me sinto-me mal.
Isto é contra a minha natureza.
O melhor… (pensativo) é pô-la a andar,
não vá a Larissa aparecer!
(Vira-se para a Miúda e diz:)
12 putos à tua espera e faltas porque te apetece.
Ganda malha! (sorri e sacode a mão).
Aux.: Então, entras ou não entras?
Vais chegar atrasado. Quando é que a peça está pronta?
Miúda: Está quase…
Eles, hoje, ensaiam sem mim!
SOM: 9.2 Telemóvel
(o telemóvel toca e ele vê quem é…)
Oh não! É o Atum, o escritor da nossa próxima peça.
O puto acha-se magnífico!
Diz que todos são terríveis, e pior, acha-se engraçado e bom amigo.
Ele não gosta de más influências…
Que passe o meu tempo contigo!
Acha que prejudica a nossa existência.
Mas ama quando atua, no palco ou na rua.
De resto, está sempre na paródia…
e todos juntos, sempre em personagem, criamos uma história.
Bom, estou a divagar!
Tenho de ir, infelizmente, senão ele vai-me matar.
SOM: 9.3 Telefone Fixo
(Toca o telefone e Auxiliar atende)
Puto D.: Para alguém que anda no teatro fazes rimas pobres.
É pá, com rimas más não cobres…
Miúda: Fui!
SOM: 9.4 Cartão
Aux.: Vai lá, já estão à tua espera. Os professores já telefonaram para
aqui!
Puto D.: Bom. O dia está acabado. Volto amanhã!
Fazendo as contas… Até que não foi mal!
Desencaminhei dois e ainda comi um almoço.
Nada posso fazer mais. Vou para casa.
(pensativo)
Minha casa distante, tão longe desta escola. (suspira)
Ainda mais… não tenho guita para ir…
Outro remédio não tenho senão esperar que o meu pai me salve…
(faz uma grande careta de assustado, abrindo muito os olhos)
Acho eu!
SOM: 9.5 Fim de Cena
Cena X
Cena X
SOM: 10.1 Som jogo
(O P.D. está sentado a jogar no telemóvel, levanta-se e vai ao encontro da
Auxiliar.)
Puto.: É pá, o meu pai nunca mais aparece.
Aux.: O que queres que faça? Já lhe telefonaste?
Puto D.: Sim. Não atendeu.
Mandei mensagem.
Aux.: Olha, viste!?
Foi preciso chegar ao fim do dia para fazeres qualquer coisa certo!
Puto D.: É. Finalmente fiz-me esperto!
(Já distraído, senta-se a jogar.)
Aux.: Já são horas! As minhas colegas devem estar por perto.
SOM: 10.2 Funcionárias
(Três funcionárias saem da escola, a cozinheira, a psicóloga e a professora.
A Auxiliar junta-se a elas. O grupo move-se para o centro do palco e vira-se
para o público.)
Todas as funcionárias:
Somos as funcionárias desta escola.
Aux.: Cujo teto já não se segura, pois não tem cola.
Cozinheira: Cujos putos desperdiçam comida e não comem em condições.
Professora: Cujos computadores caquéticos se arrastam pelas aulas e
pelas salas!
Psicóloga: Cujos putos só se metem em confusões e muitas atrapalhações.
Para não falar das limitações!
Sou psicóloga
(aponta as companheiras)
e estas, são guerreiras.
A toda a hora com os putos brigam.
Cozinheira: Sou a cozinheira e enjoadinhos enfrento. Tiro os telemóveis
aos putos
(diz com ar satisfeito:)
e ponho-lhes sopa pela goela adentro!
Professora: Sou a Senhora Professora e corrigir é o que mais faço.
Ensino matérias quase inúteis e outras, nenhum cartão lhes passo…
(Aponta para o público e diz:)
Algum de vocês sabe fazer, sequer, um laço?
Aux.: E eu sou a auxiliar.
Morro de tédio, morro de trabalho. Limpo… e com os putos tenho de
apanhar.
Todas as funcionárias: Todas nós, trabalhamos leve, mas também no duro.
Trabalho mal pago e
(aponta para a escola)
muito aborrecimento atrás deste muro.
Psicóloga: Metade dos putos não sabem o que fazer depois do nono.
A esses tenho de orientar.
Também há os desregulados e desajustados
Dou-lhes brinquedos…
Coisas espirituais…
Para esses o futuro é algo sem importância…
Mas é um trabalho que amo!
Professora: Eu odeio este trabalho!
João, está calado!
Franciso, agora és tu?
Lídia, Uíja! Calem-se!
Assim não vão perceber nada!
(desorientada) A paciência chega ao limite.
E depois, como é possível?
Há sempre silêncio na sala ao lado.
Será que isto é só comigo?
Cozinheira: Ui! E quando um puto deixa um prato cair…
Ai! Apertam-se-me as almas!
Todos os miúdos se levantam e batem palmas!
Aux.: E os que vandalizam? Brutos!
Desenhando genitais e mensagens de amor… que dor! Putos!
Todas as funcionárias:
Vamos embora. Deste inferno saímos.
(Todas fazem intenção de sair de cena mas, a Auxiliar volta atrás, olha para
o P.D. e diz:)
Aux.: Então, miúdo, ainda por aqui estás?
Puto D.: (Sem tirar os olhos do telemóvel) É!
Aux.: Explica-me cá, com todas estas coisas maravilhosas, ainda odeias a
escola?
Puto D.: Sim, desde o primeiro dia de aulas. Não gostava daquela velha
de humores estéricos do 1º ciclo.
Aux.: Não tens emenda!
Então e o teu Pai? Não aparece?
Também, depois da reunião, deve estar em casa muito feliz.
Bom, até amanhã!
(Vira-se para as colegas)
Vamos, queridas, que todas nós temos vidas.
Puto D.: (olha para para um lado e para outro após uma longa pausa em
silêncio)
Bem… estou lixado!
(olha para o público constrangedoramente)
Então, como vai a vida?
SOM: 10.3 Fim de Cena
SOM: 10.4 Agradecimentos
Baixar e ajustar o volume até o público sair da sala.
Fim